memórias deterioradas
caducas amontoadas
de menino deixado quieto
poeira e bolor à flor da pele
envelhecer quase sabiamente
lembro de dias abafados com chuvas de verão
são desperdícios de imagens
vivi sobre trilhos diversos
a várias direções tortas
aventuras meio a enchentes
recuos em riacho de rãs
cresci de abandono e coisas miúdas
entendi o pensar (pesar?) das nuvens
aprendi a ler os pedriscos coloridos no chão
aí vem alguém me dizer
você é um velho de trezentos anos
você é um louco um sem noção
porque minha barba cresceu desmantelada
e me extasio feito abestalhado da infância
e trazia a nostalgia dentro da jaqueta rasguenta
dos anos sessenta
e os segredos de todas as gentes
ah... eu devia ser aposentado!
22.7.08
cansado. tenho estado cansado como quem carregasse um fardo.
eu sinto todo o peso de escolhas mal tomadas, todas minhas.
e a criança que eu carregava em mim envelheceu, tem ferrugens, podres.
então ua trouxa de lembranças e pesares.
faço de seus problemas lições relativamente fáceis de se levar.
já meus são de contorno quase impossível: improvável.
pois desenvolvi antídotos contra meus métodos: intuitivamente.
e sigo cansado.
me arrasto pelas ruas vazias
de alguma coisa restante
pois sou aquilo que se esquece de olhar e que se perde: facilmente
e a solidão tem o efeito da chuva na madrugada
monotonia
18.6.08
eu sonho com anjos terríveis quando me drogo. eles ficam a pular em minha cama feito crianças encapetadas. eles gritam demais e eles quebram meus pertences, e eles me azucrinam insuportavelmente até o amanhecer.
eu sei que foram eles que quebraram minha cerca. eu sei que foram eles que pisotearam minha grama. e eu sei que eles têm razão na rebeldia com que me tratam.
mas chega o amanhecer, e os danadinhos deitam em minha cama. eles querem dormir: a minha cama fica lotada deles.
então eu os embalo, um a um, em meus braços... porque eles são a única coisa que me faz companhia... e porque, se eu não o fizer, eles ficam tristes, e choram...
agora a próxima música é para todas as mulheres na platéia
uma música para as garotas
ei, garotas, vocês odeiam os homens?
odeiam o planeta?
bem, eu ainda vejo ternura no rostos de vocês
e inocência da infância
e deve haver ternura bem no fundo
vocês são tão frias, mas dá para ver
você me falou da escola
eu só quero saber sobre você
e isso me magoa agora
e me assusta agora
e agora você sabe
mas se você se importa comigo
(ME DIGA AGORA)
se prefere minha companhia
(ME DIGA AGORA)
e se é importante quando toco sua mão
então é melhor você
me dizer agora
bem
tenho lido alguns escritores antigos
porque eu sabia, sabia que eles compreenderiam
porque dignidade, dignidade e ternura deviam ser
aplicadas aos romances modernos
então não quero saber, não estou interessado em sua escola
então não quero saber, não quero ouvir sobre seus bichanos idiotas
(ou seu dever de casa)
só quero conversar se for sobre amor! ou sexo! ou corações sôfregos...
ou então cale a boca!
e eu me vou...
mas
se você se importa comigo
(ME DIGA AGORA)
se prefere minha companhia
(ME DIGA AGORA)
e se é importante quando toco sua mão
(ME DIGA AGORA)
e se é importante quando vou para sua cozinha
quando é tarde da noite
e quando é fria a noite
quando está escuro lá fora
quando está frio lá fora
eu quero saber se é importante quando seguro sua mão
quando você está completamente sozinha
(ME DIGA AGORA)
se você quer realmente falar comigo
(ME DIGA AGORA)
e se você busca um amor
(ME DIGA AGORA)
quero dizer, se precisa de um amor
(ME DIGA AGORA)
se está pronta para ser sincera com um amor
(ME DIGA AGORA)
se é importante quando você está sozinha à noite
quando é fria a noite e quando é escura a noite
quando faz frio lá fora, quando está triste lá fora
e quando estou triste lá fora, junto à lâmpada da rua
junto à sua casa, perto da porta da cozinha
estou perplexo porque estou assustado
porque estou triste
porque está fria a noite
porque a noite está escura
e estou sozinho à noite
estou tão triste e tão assustado
e eu quero saber se você me dirá
se você se importa comigo
e então, se você se importa consigo mesma
e se você vai parar de se drogar
e se você vai parar de ser tão difícil
e se você vai parar de dificultar uma conversa
e se você vai me deixar entrar
e eu poderei conversar com você
quando é escura a noite
e quando é triste a noite
e solitária a noite
eu não quero ficar sozinho à noite
(ME DIGA AGORA)
eu não quero estar triste à noite
(ME DIGA AGORA)
eu quero ajudar você
quando estiver frio lá fora
quando você estiver por todo lado
quando estiver triste lá fora
eu quero que você me diga agora
eu não posso esperar outro dia
você tem que se apressar
eu não posso esperar outro minuto
é agora ou nunca
é agora ou nunca
você tem que dizer
você tem que dizer
você não pode se esconder
ou se drogar
ou fumar cigarros
ou o frio lá de fora
ou os bichanos
ou essas outras desculpas
que me impedem de lidar com você
eu quero lidar com você
eu quero conversar com você agora
você tem que ser sincera agora
você tem que me dizer agora
se você se importa comigo
(ME DIGA AGORA)"
23.4.08
"não estamos nem aí
hayden
entre quatro paredes
manhã de terça-feira, novembro
na noite anterior, dormi em sua casa
mal conseguíamos esperar por levantar
e tomar um café da manhã daqueles
seis xícaras de café depois
ambos teríamos de estar no trabalho em uma hora
“vamos telefonar doentes”, eu sugeri
eu ligarei para sua chefe e direi que você está mal
você ligará para o meu, e dirá que estou muito doente
se fazendo passar por minha mãe
então fomos pra rua
procurando por uma cabine telefônica
ensaiamos o que deveria ser dito
para que então pudéssemos ter o dia inteiro... pra nós
encontramos uma cabine com espaço pra dois
ligo para sua chefe e falto com a verdade
estão loucos por sua causa... mas superarão
você liga pro meu trabalho com a voz de minha mãe
eles acreditam em você... e começa a chover lá fora
a gente se esconde na cabine telefônica
não pára até as 5
espremidos juntos, a gente não está nem aí...
não estamos nem aí..."